“COM JOÃO LOURENÇO A SAÚDE PIOROU”

O Sindicato Nacional dos Médicos Angolanos (Sinmea) diz que a situação da saúde no país “é extremamente preocupante” e acusou o Governo de inverter as prioridades do sector, alertando para o agravamento de doenças preveníveis.

Segundo Adriano Manuel, “o quadro da saúde no país é extremamente preocupante se tivermos em conta que, infelizmente, o Governo inverte prioridades. Quando deveria investir a nível da assistência primária investe no sistema terciário”.

À Lusa, no âmbito das celebrações do Dia Mundial da Saúde, assinalado na terça-feira, o médico disse que a “inversão de prioridades” no sector concorre para o aumento de doenças preveníveis, a exemplo da malária, febre tifoide dengue, chikungunya e tuberculose.

“Vamos encontrar o recrudescer destas doenças o que tem forte implicância do ponto de vista de custos para o país”, lamentou.

De acordo com Adriano Manuel, o país continua a observar um elevado índice de doentes com tuberculose e de malnutrição crónica, sobretudo em crianças menores de 5 anos, um quadro que se terá agravado, frisou, desde que o actual Presidente angolano, João Lourenço, assumiu o poder.

Argumentou que quando o actual Governo assumiu o poder (em 2017) o país tinha “entre 35% e 38% de crianças com malnutrição crónica” e hoje “estamos com uma média entre 40% e 45% com crianças de menos de 5 anos com má nutrição crónica”.

Para o médico pediatra, tal situação tem forte implicação do ponto de vista da assistência médica, mas “a grande implicância mesmo é no desenvolvimento da saúde destas crianças, porque o cérebro humano se desenvolve com boa alimentação”.

“E estas crianças, com pouca ou sem alimentação, vão ter o coeficiente de inteligência extremamente reduzido e o desenvolvimento do país está em perigo nos próximos 30 anos. Daí a importância de se trabalhar para melhorar a assistência primária de saúde”, insistiu.

O presidente do Sinmea considerou mesmo que o Governo de Angola inverteu, “de forma tendenciosa”, as prioridades no sector, com a construção de hospitais de nível terciário em detrimento de unidades primárias para, alegadamente, “sobrefacturar” as despesas.

Porque as grandes infraestruturas “absorvem muito dinheiro e, então, a lavagem de dinheiro faz-se com as grandes infraestruturas, as pessoas próximas do gabinete do Presidente da República que sugerem este tipo de investimento têm plena consciência de que estes investimentos não são os mais ideais”.

Questionou ainda as razões da aposta em grandes infraestruturas hospitalares quando, sustentou, o “Governo tem dificuldades em manter estes hospitais por falta de dinheiro, sobretudo a sua manutenção que está muito cara”.

João Lourenço autorizou despesas no valor de 4,5 mil milhões de kwanzas (4,2 milhões de euros) para a aquisição de medicamentos destinados ao tratamento da diabetes, hipertensão e anemia falciforme, segundo decreto presidencial divulgado em Março passado.

Adriano Manuel assinalou a relevância da medida presidencial, “porque os hospitais de uma forma geral não têm os referidos fármacos”, observando, no entanto, que o problema da saúde em Angola reside na assistência primária.

“O grande problema é a prevenção e é a nível da assistência primaria que vamos identificar os grandes problemas relacionados com a hipertensão arterial, diabetes e mesmo a insuficiência renal (…)”, reiterou.

Relativamente ao anunciado concurso público para o preenchimento de 2.963 vagas para o setor da saúde, o sindicalista considerou que este não vai responder ao actual défice de profissionais que se regista no setor.

“Estes profissionais agora recrutados é como se fosse uma gota no oceano, porque nem sequer vão colmatar o défice de quadros existente nos hospitais, mas não vai mudar muita coisa, tenho dúvidas que reduza a mortalidade e a morbilidade, não vai acontecer, vai aumentar a força de trabalho, mas ainda estamos muito aquém”, concluiu.

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